CELEIRO DA PATRIARCAL
MENÇÃO HONROSA Prémio BF22 – Bienal de Fotografia DE VILA FRANCA DE XIRA
Muito tempo antes de saber o que Ermo significava, já lá brincava com amigos meus. Na verdade, achei que o Ermo só existia ali: naquelas duas ou três ruas cercadas por árvores.
Ermo era o nome de um lugar nos arredores do porto muito próximo de onde vivi a minha infância e adolescência. Chegou a ser uma floresta extensa e densa até ao início dos anos 70. Altura em que o urbanismo transformou essa floresta extensa em dezenas de pequenos bosques. Foi nessa espécie de arquipélago de bosques que passei grande parte da minha infância. De dia, a luz: a aventura e a descoberta. De noite, a escuridão, o medo: o som dos animais, o cheiro a fumo das queimadas e a certeza dos fantasmas. Num desses bosques havia uma casa onde vivia uma mulher que tinha um problema de visão – os olhos dela eram brancos, mas não era cega. Ela vivia sozinha e quando lhe perguntavam como conseguia fazer a sua rotina sem qualquer ajuda, ela sorria e respondia que havia uma mão no ombro que a guiava através das árvores. Mas isso não a assustava – o que a assustava eram as árvores.
Entre o documento e a representação, Ermo pretende ser um mapeamento sensorial de um território distante na memória. Abordando e rodeando questões entre o lar e a casa, o subúrbio e a infância, a forma e o símbolo, tentando criar um universo onírico, ambíguo e acima de tudo interpretativo. Tornando este “Ermo” que me é tão particular, no mais universal possível.
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